30 Dezembro, 2008

Passado digital

Por 30 anos, a Carriço Filmes documentou, ininterruptamente, os principais eventos ocorridos em Juiz de Fora e região, construindo um verdadeiro tesouro tanto em relação à memória da cidade quanto ao nascimento do próprio cinema brasileiro. Iniciando as comemorações pelos 50 anos de morte do cineasta João Carriço, a Cinemateca Brasileira digitalizou oito cinejornais produzidos pelo juizforano nas décadas de 30 e 40. O conteúdo foi entregue à Funalfa em um DVD, o que vai facilitar o acesso da população em geral ao material.

A entidade, aliás, tem planos de dar prosseguimento ao trabalho, através de um projeto de digitalização dos 236 cinejornais que Carriço produziu. Para viabilizar essa idéia, a Prefeitura incluiu no orçamento 2009 recursos da ordem de R$ 120 mil. No entanto, o superintendente da fundação, Toninho Dutra, pondera que se trata apenas de uma previsão. “Por enquanto, o orçamento ainda é uma peça de ficção. Mas já é um passo muito positivo incluir esse projeto, pode servir mesmo como uma propaganda.”
Com cerca de dez minutos de duração cada, os cinejornais trazem registros de uma série de eventos políticos e sociais na cidade, como o carnaval de 1941, as eleições de 1945, a inauguração da estrada entre Juiz de Fora e Monte Verde e uma corrida de bicicletas organizada pelo Cicle Clube.
Tecnologia para preservar
De acordo com o chefe da Divisão de Memória da Funalfa, Nilo Araujo Campos, além de ser um formato mais seguro para a conservação e mais simples para ser reproduzido, o DVD permite um ganho considerável na qualidade das imagens. Realizados originalmente em formato 35mm, 125 cinejornais da Carriço Filmes foram transpostos para o formato VHS na década de 90, em uma primeira tentativa de facilitar o acesso do público ao material. No entanto, o suporte sofreu o desgaste do tempo, com perda de qualidade e definição.
Segundo Campos, a intenção do projeto de digitalização seria resgatar não só filmes já existentes no acervo, mas também os outros 111 que ainda não foram transpostos. Já o conteúdo do DVD gravado pela Cinemateca Brasileira, deve ser incluído na programação de projetos da Funalfa, como o Cinema Para Todos.
Memória da sétima arte
Pesquisadora da obra de João Carriço, Martha Sirimarco acredita que a digitalização do acervo implicará em um ganho não só para a memória local, mas para o próprio cinema nacional. “Desde que começou a produzir filmes, Carriço já dominava totalmente a técnica cinematográfica. Além disso, ele sempre fez tudo muito bem feito, foi ao Rio de Janeiro buscar os melhores cinegrafistas e contratava os locutores de maior prestígio. Ele não fazia cinema por hobby, era profissional”, comenta.
Martha lembra, ainda, que a relevância das produções da Carriço Filmes não se restringem a Juiz de Fora, uma vez que ele registrou acontecimentos importantes em Petrópolis, Belo Horizonte e até no estado do Mato Grosso. “Carriço filmou por 30 anos sem parar. Nenhum outro cinejornalista daquela época conseguiu essa façanha”, destaca.
(Jornal Tribuna de Minas, 30 de dezembro de 2008)

10 Dezembro, 2008

VII Feira Preta Cultural

Programação de Fim de ano - Cachaça Cineclube

Festival Ver e Fazer Filmes - Reinventando a própria tradição

Há três anos, Cataguases incorporava ao calendário de eventos culturais do país o Cineport, festival com a proposta inédita de reunir filmes de países que têm em comum a língua portuguesa. Neste ano, a cidade inova outra vez, criando um evento que foge à regra comum. O Festival Ver e Fazer Filmes abrange as tradicionais sessões de cinema para a população, mas coloca em foco a produção cinematográfica. Durante dez dias, a cidade sedia uma disputa entre três equipes formadas por estudantes de cinema e comunicação, que filmam, simultaneamente, curtas-metragens baseados em contos de Machado de Assis. “Estamos invertendo a lógica convencional e fazendo um festival muito mais de fazer que de ver”, explica a diretora-executiva do festival e presidente da Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho, Mônica Botelho.
Diretor-executivo do festival e gestor cultural do projeto Fábrica do Futuro, César Piva ressalta que o evento tem o propósito de incentivar a criação de um novo mercado de trabalho no município a partir de uma tradição histórica. A idéia, segundo Piva, é fomentar a chamada economia criativa da cultura, induzindo uma cadeia de serviços na cidade na área da produção audiovisual. “A meta principal de todo esse esforço é criar um pólo de criação e produção em Cataguases nos próximos dois anos”, adianta.
Resgate sem nostalgia
O ideal de transformar o cinema em mercado de trabalho é acalentado, ainda, por outras propostas ambiciosas, como a produção de um longa-metragem totalmente rodado em Cataguases a partir da adaptação do livro “Inferno provisório”, de Luiz Ruffato. Segundo Mônica Botelho, o projeto está partindo para a fase de captação de recursos.
Através da busca pela inovação e do investimento pesado em infra-estrutura, a cidade vai atrás do resgate de um passado luminoso, que teve seu auge na década de 1920, com o pioneirismo do cineasta Humberto Mauro, a publicação da revista literária “Verde” e a arquitetura moderna, que se mostra imponente em vários pontos da cidade. O resgate, conforme Mônica, também está imbuído da superação de um determinado sentimento de nostalgia. “Às vezes, grandes fatos do passado podem ser aprisionantes. Superar esse modelo, de certa forma, e apontar para um novo modelo é um grande desafio. Nosso intuito é transformar o passado em impulso para o futuro”, resume.
O resultado desse esforço empreendedor se torna visível no cotidiano da cidade, com a participação da comunidade local no festival. Oferecendo suporte às equipes, estão 250 moradores de Cataguases, capacitados em dez oficinas sobre diferentes especialidades técnicas, oferecidas a partir da parceria com o projeto Fábrica do Futuro. Nesse ponto, talvez, esteja a maior contribuição do festival para o município, uma vez que uma dupla via de oportunidades está sendo aberta. Por um lado, a cidade dispõe de recursos técnicos para que estudantes realizem seus filmes com estrutura profissional. Do mesmo modo, os cidadãos têm condições de colocar em prática e aprimorar o conhecimento que receberam nos cursos. A esteticista Fernanda Menta, por exemplo, conseguiu ser incluída em duas equipes. Na produção de “As chinelas turcas”, é responsável pela maquiagem. Já em “A cartomante”, ela entra em cena como atriz. Participante de três oficinas, a moradora se diz gratificada com a experiência. “Só não fiz mais porque não tive tempo”, comenta.
Disputa com a bênção de veteranos
Para a edição inaugural do evento, foram convidadas equipes, com dez integrantes cada, da Faculdade de Cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF), de Niterói, da Escola Superior de Teatro e Cinema, situada em Lisboa, Portugal, e da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Como em uma gincana convencional, os grupos foram divididos por cores e são avaliados não só pelo resultado das produções, como também pela organização com que conduzem seus trabalhos. A disputa será definida no sábado, quando os curtas serão exibidos e passarão pelo crivo do júri e do público em 15 categorias.
Longe de estar à deriva nessa empreitada, cada equipe recebe as orientações de um diretor consagrado, convidado pelo festival: o brasileiro Nelson Pereira dos Santos, o português Fernando Vendrell e o angolano Zezé Gamboa. Além disso, os alunos contam com o apoio de um time de profissionais de primeiro escalão em áreas como fotografia, iluminação, maquinaria e som, que prestam apoio a todos os grupos.
No aspecto técnico, a central de produção organizada pelo festival disponibiliza ilha de edição exclusiva para cada equipe, salas de reuniões individuais e todo o equipamento necessário para rodar um filme com qualidade profissional, incluindo gruas e “steady cams” (tipo de câmera que funciona presa ao corpo do cinegrafista). “É uma oportunidade fenomenal, porque a prática se revela um outro mundo. Por mais que se façam filmes na escola, serão sempre filmes escolares, os alunos estarão sempre protegidos”, ressalta o professor da Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, Paulo Leite.
(Fonte: Jornal Tribuna de Minas - 09/nov/2008)